sexta-feira, 18 de setembro de 2026

A Instrumentalidade Humana III - Destruição e desespero

"- O por do Sol. O fim da vida. Isso não é como eu gostaria que fosse. 
- Manhã. O começo de um dia. De outro dia terrível. Eu gostaria que isso não fosse do jeito que é."
(Neon Genesis Evangelion)

Todas as coisas seguem um mesmo ciclo existencial. Se houve um início de tudo, existe também um fim para todas as coisas. No entanto, alguns dizem, baseados naquela máxima tradicionalmente associada a Lavoisier, que “nada se cria e nada se perde, tudo se transforma”. Tudo bem, mas antes, para que uma coisa seja transformada em outra, é preciso que ela primeiro deixe de ser aquilo que era, antes de tomar uma nova forma; e exemplos disso é que não faltam ao nosso redor.

Na época em que primeiro tratei desse tema, ainda muito rudimentar no trato filosófico, eu recorri à imagem de uma transmutação alquímica que passaria por compreensão, decomposição e recomposição. Aquela apresentada em Fullmetal Alchemist por Hiromu Arakawa.  Assim, após adquirir o entendimento sobre aquilo que compõe uma matéria, o alquimista seria capaz de decompor essa substância e reestruturá-la de maneira diferente. Tudo precisaria ser destruído antes de evoluir. O ouro e a prata precisam ser derretidos antes de serem transformados numa joia valiosa. E nós não fugiríamos a essa lei; pelo contrário, ela se aplicaria ao homem de duas formas semelhantes, porém distintas no que se refere à sua magnitude.

Convém fazer aqui uma primeira correção ao homem que escreveu essas linhas. “Compreensão, decomposição e recomposição” não constitui propriamente uma lei histórica da alquimia. A imagem, entretanto, continua útil se for assumida como imagem. A tradição alquímica oferece inclusive uma fórmula mais antiga e mais sugestiva para o que procuro descrever: "dissolver e reunir", separar e recompor. O interesse não está em transformar psicologia em química clandestina, mas em perguntar por que tantas representações da transformação humana recorrem à morte de uma forma anterior.

Para que o homem se torne mais sábio, precisa antes passar pelo sofrimento, para só então conseguir adquirir a sabedoria. Precisa ser destruído, esmagado pela dor e pelo sofrimento, para depois se reerguer maior e mais forte. As formas como se dá essa transformação no homem são as mais variadas e não caberia aqui descrevê-las. Mas eu estava convencido de que somente através da experiência o homem conseguiria evoluir e se tornar outro, se tornar melhor.

A experiência pode transformar; o sofrimento pode revelar regiões da existência que permaneceriam invisíveis em condições mais confortáveis. Mas daí não se segue que a dor possua uma pedagogia automática. Sofrer não confere sabedoria por direito.

Kierkegaard será particularmente importante porque o desespero, novamente em O desespero humano, pode aumentar a consciência que o eu possui de si e, ainda assim, continuar sendo desespero. A consciência mais profunda da própria condição não garante que o indivíduo estabeleça uma relação melhor consigo mesmo. Pode acontecer justamente o contrário: quanto mais claramente vejo aquilo que sou, mais desesperadamente posso recusar-me a sê-lo.

No entanto, assim como acontece na natureza, nem todas as lagartas conseguem tornar-se borboletas, e nem sequer todas as borboletas conseguem voar. Assim também, muitos homens acabam estagnados naquela segunda fase da imagem que eu construí e permanecem destruídos. Olavo assinala o lamentável estado da sociedade brasileira na quarta camada do seu sistema das 12 Camadas da Personalidade.

Esses, os que não evoluem, quebram a lei e voltam ao nada, à inexistência?

Às vezes a fraqueza é maior do que o sofrimento e, dessa forma, não conseguimos passar para a reestruturação. Como uma grande estátua que, ao ser restaurada, acaba caindo e se tornando pó. Não se reestruturou como uma nova escultura, mas talvez possamos dizer que se reconstruiu como pó. Não sei ao certo quais os limites dessa imagem e nem sua aplicação no que se refere ao psicológico do homem. No entanto, eu estava mais do que convencido de que tudo precisava ser destruído antes de evoluir.

E então percebo que preciso destruir minha primeira certeza nesse ponto. Se o sofrimento produzisse necessariamente aperfeiçoamento, não haveria ruínas. Mas existem. 

Existem experiências que ensinam, experiências que ferem, experiências que transformam e experiências das quais simplesmente tentamos sobreviver. A destruição não traz dentro de si a garantia da recomposição.

Essa diferença será essencial quando chegarmos às representações dos dilemas morais e existenciais em Neon Genesis Evangelion. Os personagens não sofrem e, por isso, tornam-se automaticamente melhores. Alguns repetem padrões, alguns se fecham, alguns ferem os outros justamente porque foram feridos. A obra não santifica a dor. Ela investiga aquilo que os indivíduos fazem com ela.

Assim como a humanidade. Penso que somente através do retorno à inexistência poderíamos ressurgir como uma raça pura e sem máculas, capaz de compreender uns aos outros e de viver em paz com os que são diferentes. Afinal, todos são diferentes.

Mas não quero que isso se torne um texto semelhante às loucuras pregadas por grupos extremistas, como se algum homem ou grupo de homens pudesse se autonomear supervisor da humanidade e decidir quando ela deve acabar, exatamente como Gendo usou a NERV. Não. Eu imaginava que essa transformação deveria dar-se de uma forma superior.

Penso então: só através do caos, da destruição total, alcançaríamos a forma perfeita. Afinal, não é essa a proposta do Apocalipse? A destruição de tudo o que é imperfeito, como o pecado, e a elevação dos justos ao estado da perfeita união com Deus?

Hoje essa comparação me parece mais interessante justamente porque precisa ser contestada.

O Apocalipse cristão não aponta simplesmente para a inexistência. Sua linguagem é de julgamento e catástrofe, certamente, mas também de ressurreição, nova criação e comunhão. O ponto final não é o nada: é uma Jerusalém nova. Essa diferença terá enorme importância diante da Instrumentalidade. Uma coisa é imaginar a salvação como comunhão de pessoas; outra, como dissolução da própria diferença entre elas.

Talvez a proximidade visual entre Apocalipse e Instrumentalidade esconda uma divergência metafísica. Ambos podem falar em transformação total. Mas precisamos perguntar: depois da transformação, quem permanece capaz de dizer “eu” e “tu”? Na Igreja Católica, o Concílio de Calcedônia, ocorrido no ano de 451 d.C., afirma que, em Deus, estaremos unidos mas não confundidos. 

Pode soar loucura misturar meu pensamento sobre o sofrimento humano com teorias antigas, religião e mentalidades de artistas contemporâneos, mas é assim que minha cabeça funciona.

O momento pelo qual minha mente passa é o da destruição completa. O momento do caos onde todas as estruturas são lançadas por terra. Mas penso ser eu aquela estátua derrubada no ateliê, que não ressurgirá como uma obra restaurada, mas que será reduzida a pó, a cinzas. Assim como naquele dia de ira, que transformará todo o mundo em cinza fria.

"E tudo retorna ao nada
Tudo começa a cair, cair, desabar
E tudo retorna ao nada
Eu apenas me entristeço, me entristeço, me entristeço, me entristeço." 
(Come, Sweet Death)

Em The End of Evangelion, a canção que acompanha a catástrofe insiste justamente em imagens de queda, retorno ao nada e tristeza. A escolha musical produz um contraste quase perverso: uma melodia de doçura desconcertante acompanha a dissolução do mundo e das fronteiras individuais. A forma musical diz uma coisa enquanto a imagem diz outra. A Instrumentalidade chega como catástrofe e consolo ao mesmo tempo. Analisarei com mais calma esse aspecto em específico mais à frente.

As construções caem como se fossem todas feitas de areia, voltam ao nada. Tudo o que se vê é desespero, medo, desesperança. Como se estivesse tudo voltando ao nada, tudo voltando à inexistência.

"- Está com medo não é?

- Não, não estou.  Eu sou feliz. Porque eu quero morrer.  Eu quero desesperança.  Eu quero voltar ao nada. Mas eu não posso.  Ele não vai me deixar voltar a inexistência. Ainda não. Eu ainda existo porque ele precisa de mim. Mas quando tudo acabar, quando eu não tiver mais utilidade, ele vai me abandonar. Eu rezei pelo dia em que ele me abandonaria. 

Mas agora... Agora eu tenho medo." 

(Neon Genesis Evangelion)

Tudo isso precisa acabar. Esse mundo, as pessoas que fazem sofrer umas as outras, tudo precisa de um fim. Precisamos de um recomeço, precisamos renascer como uma unidade perfeita. Mais do que nunca eu desejo que a Instrumentalidade Humana fosse mais do que uma ideia alucinada de um artista mal compreendido. Mais do que nunca eu desejo que fosse uma teoria verdadeira, capaz de se tornar realidade. Capaz de trazer o mundo ao nada, capaz de levar todos a perfeição através da destruição.

Não faz sentido que esse mundo podre, corrompido e cheio de pecados continue a existir. Não é possível que alguém tão desprezível quanto eu mereça continuar a viver. Não é possível que haja algo de bom que eu ainda possa fazer. 

Não posso fazer nada de útil. De importante. De bom. Tudo o que posso realizar é a desgraça, tudo o que tenho feito é me arrastar na lama como um animal, me deflorando como se não tivesse valor algum, e de fato não tenho. Uma vergonha para pais e amigos. Incapaz de ter e amar uma mulher, incapaz de formar uma família. Incapaz de dar orgulho a alguém. Incapaz. Apenas faço o que ninguém mais quer fazer. Apenas estudo e vejo coisas que ninguém mais quer ver. Apenas levo uma existência vazia e sem sentido que não importa a ninguém. 

"O eu que é reconhecido é o eu que ta representando o papel pra poder ser apreciado, mas esse não é meu eu verdadeiro." (Neon Genesis Evangelion)

Como se todas as coisas que um dia fizeram sentido hoje tenham se abstraído de tal forma que não é mais possível definir o que é o azul ou o que é o vermelho. O que está em cima, o que está embaixo. As perspectivas são muitas, tantas quantas são as dúvidas.

De fato, é o Apocalipse pelo qual minha mente teria de passar antes de ressurgir para uma existência nova. Essa última frase ainda conserva uma esperança que as anteriores pareciam negar.

“Antes de ressurgir.”

Mesmo no momento em que o narrador anuncia a destruição total, introduz uma temporalidade posterior à destruição. A própria linguagem se recusa a permanecer no nada. Existe um “depois”.

Assim como num cataclismo nenhum povo, nenhum lugar é poupado, também na destruição mental todos os seus aspectos são igualmente destruídos, sem que haja perspectiva de melhoria. Todos os campos então estão se desmoronando.

As dúvidas sobre as verdades, sobre o que é o certo ou errado, sobre o que devo fazer daqui para frente, sobre o real sentido de conceitos como o amor, a amizade e o abandono. Tudo isso tem explodido sem precedentes em minha mente e não há forma de controle. Não há como impedir que aconteça.

Já começou.

O fim do mundo já começou.

A destruição de tudo e de todos já começou.

Em breve não haverá mais Gabriel.

Não haverá mais eu e nem você.

Haverá apenas o nada, a inexistência.

A repetição agora já não funciona como argumento. Funciona como cerco.

É precisamente uma das estratégias que Evangelion utiliza em seus episódios finais. Uma frase retorna não para oferecer nova informação, mas para reduzir as rotas de fuga da consciência. O sujeito é obrigado a ouvir novamente aquilo que acabou de afirmar até que a afirmação revele o que escondia.

“Não haverá mais eu.”

Kierkegaard reconheceria imediatamente aqui uma das formas fundamentais do desespero: não querer ser si mesmo.

O eu não deseja apenas perder alguma coisa. Deseja perder-se. Existe uma diferença decisiva entre sofrer porque determinada condição da vida não corresponde ao meu desejo e sofrer porque considero a própria existência daquele que deseja um erro que deveria ser apagado.

A segunda forma é mais profunda porque o problema deixou de ser “algo aconteceu comigo” e tornou-se “o problema sou eu”. Naquele momento de Evangelion, Rei também exprime esse paradoxo: deseja a inexistência e, ao mesmo tempo, quando a possibilidade de desaparecer deixa de ser abstração e se aproxima, descobre o medo.

Querer não existir não significa que a relação do eu consigo mesmo tenha sido resolvida. O desejo de apagamento continua sendo desejo de um eu que existe e que se relaciona com sua própria existência. Por isso Kierkegaard chama o desespero de uma doença “até a morte”: não porque seja simplesmente o desejo físico de morrer, mas porque nele o eu tenta realizar uma impossibilidade, livrar-se definitivamente da relação que ele próprio é.

Tudo isso precisa acabar.

Esse mundo, as pessoas que fazem sofrer umas às outras, tudo precisa de um fim.

Precisamos de um recomeço, precisamos renascer como uma unidade perfeita.

Mais do que nunca eu desejava que a Instrumentalidade Humana fosse mais do que uma ideia de ficção. Mais do que nunca eu desejava que fosse uma teoria verdadeira, capaz de se tornar realidade. Capaz de trazer o mundo ao nada, capaz de levar todos à perfeição através da destruição.

O desespero individual adquire imaginação política e metafísica. O movimento é fascinante porque a afirmação deixa de ser apenas “eu não quero existir”. Torna-se: “a própria estrutura da existência deveria ser outra”. E talvez aqui possamos enxergar a passagem daquilo que Kierkegaard chama de desespero da fraqueza para algo que começa a se aproximar do desespero do desafio.

Na fraqueza, não quero ser este eu.

No desafio, a relação se torna mais soberba: quero determinar por mim mesmo aquilo que o eu e sua realidade deverão ser. Não é uma progressão limpa, nem uma equivalência perfeita. As duas formas se misturam. O sujeito que deseja desaparecer também fantasia uma realidade recomposta segundo a forma que julgaria suportável. Não faz sentido que esse mundo podre, corrompido e cheio de pecados continue a existir. Não é possível que alguém tão desprezível quanto eu mereça continuar a viver. Não é possível que haja algo de bom que eu ainda possa fazer.

O desespero acabou de produzir uma de suas operações mais características: transformar sofrimento em sentença.

“Eu sofro” torna-se “eu sou desprezível”.

“Não consigo enxergar uma possibilidade” torna-se “nenhuma possibilidade existe”.

“Não consigo perceber meu valor” torna-se “não há valor”.

A força subjetiva da conclusão não garante sua verdade objetiva. O juiz e o acusado são aqui a mesma consciência, e o processo já começou com a sentença escrita.

Não posso fazer nada de útil. De importante. De bom.

Tudo o que posso realizar é a desgraça, tudo o que tenho feito é me arrastar na lama como um animal, me deflorando como se não tivesse valor algum, e de fato não tenho.

Uma vergonha para pais e amigos. Incapaz de ter e amar uma mulher, incapaz de formar uma família. Incapaz de dar orgulho a alguém.

Incapaz.

Apenas faço o que ninguém mais quer fazer. Apenas estudo e vejo coisas que ninguém mais quer ver. Apenas levo uma existência vazia e sem sentido que não importa a ninguém.

Incapaz.

A repetição novamente.

Mas agora ela produz uma identidade. Não se diz apenas “falhei nisso”. Diz-se “sou incapaz”. O predicado engole o sujeito.

É também aqui que a análise de Kierkegaard se torna especialmente útil. O desespero pode agarrar-se a um aspecto particular da existência e transformá-lo na definição inteira do eu. Algo temporal, uma perda, uma incapacidade, uma determinada relação, assume o lugar da totalidade.

O eu passa a acreditar que perdeu a si mesmo porque perdeu uma determinada forma de imaginar a si mesmo.

Misato formula em Evangelion outro aspecto do problema: existe diferença entre o eu apresentado para ser reconhecido e aquilo que o sujeito considera seu “eu verdadeiro”. Com a aparência de um monge sábio, mas com a mente frágil quanto a de um alucinado. A vida que levo é uma mentira. A pessoa que o mundo vê é apenas uma máscara daquele que se esconde.

Dez anos depois, eu não conservaria “alucinado” aqui como diagnóstico. O termo pertence ao vocabulário desesperado com que o narrador procurava descrever sua própria desorganização. Mas a imagem da máscara continua importante. O desespero agora possui uma segunda cisão: não apenas “não quero ser eu”, mas “aquilo que os outros reconhecem como eu também não sou eu”.

E então retornamos à pergunta dos episódios finais: qual deles é o verdadeiro?

O eu que os outros veem? O eu que condeno em segredo? O eu que gostaria de ser? O eu que desempenha papéis para obter reconhecimento? Ou a própria exigência de encontrar um único eu inteiramente puro já pertence ao problema?

Mas a dor, o sofrimento pela incompreensão e pelo abandono já estavam levando esse pobre miserável ao limite. Já não havia forças para viver como o mundo desejava que ele vivesse.

Ele deseja voltar ao nada, voltar à inexistência. Deseja fugir de seus medos e de seus monstros interiores. Dos fantasmas do seu passado que o assombram continuamente.

E parecia existir uma única maneira de acabar com toda essa dor: a inexistência. O nada absoluto onde nenhuma dor ou sofrimento existem porque nada mais existe. É a solução perfeita sob uma condição bastante inconveniente: que também desapareça aquele para quem a solução deveria servir. A Instrumentalidade levará essa lógica à escala cosmológica.

Ao buscar essa inexistência, sua inutilidade humana lhe parece ainda mais latente. Tudo o que consegue fazer é isolar-se num quarto escuro e clamar pelo dia em que deixará de existir. 

Pois você é fraco, fraco demais até para morrer e incapaz de uma só realização importante em toda sua existência miserável. Passará pelo mundo sem deixar vestígios, e seu nome será esquecido no exato momento em que derem as costas à sua sepultura, onde ninguém mais o visitará. Onde será devorado pela terra e finalmente, tornando-se um só com o resto do mundo, voltará ao nada, fazendo parte do todo.

Agora aparece de maneira quase perfeita a fantasia que mais tarde a Instrumentalidade ampliará. O eu que sofre por ser isolado deseja tornar-se “um só com o resto do mundo”.

Mas repare na contradição: durante todo o texto, o narrador teme ser esquecido, não reconhecido, não deixar vestígio. Ao mesmo tempo, fantasia uma condição em que já não existirá indivíduo algum capaz de possuir nome, memória ou reconhecimento.

Ele deseja exatamente aquilo que mais teme.

Evangelion transforma essa contradição numa das representações centrais de seu dilema existencial: queremos superar a solidão, mas a solução absoluta para a solidão talvez exija abolir aquele que desejava não estar sozinho.

Alguns criam grandes teorias que mudam a forma de ver o mundo. Outros criam máquinas que mudam a forma de nos relacionarmos com o mundo.

Mas qual o fruto de sua fútil vida?

Uma vida entregue aos desejos mais torpes e imundos da mente humana. Uma vida de busca por prazeres para fazer parar a dor, mas que só lhe causam mais dor. Um mundo de convenções sem sentido onde, para ser aceito, é preciso seguir uma série de normas e condutas criadas por alguém que nem está mais aqui, mas que ainda dita o certo, o errado, o feio, o bonito e o socialmente aceitável. Uma existência desgraçada, que será apagada da história como se nunca tivesse existido.

Um nada.

Aqui a dimensão moral do desespero torna-se mais explícita.

O sujeito não quer somente saber se sua vida possui sentido. Quer saber se sua existência justifica sua presença entre os outros.

Utilidade, reconhecimento, sexualidade, família, reputação, memória: critérios distintos são reunidos e transformados num único tribunal. Se falha em alguns, conclui que falhou como ser.

Kierkegaard desconfiaria profundamente dessa operação porque o eu passa a receber sua medida exclusivamente de determinações externas ou finitas. A pergunta “sou alguém?” torna-se dependente de “produzi o suficiente?”, “fui desejado?”, “fui admirado?”, “correspondi ao papel que esperavam?”.

O problema não está em essas coisas serem irrelevantes. Está em permitir que qualquer uma delas assuma sozinha o direito de pronunciar a sentença final sobre a existência.

Mas nem ao nada você é capaz de retornar.

É apenas escória e, às vezes, ao abandonar os amigos em função do próprio egoísmo, é pior do que a escória.

E então, subitamente, o texto acusa o próprio isolamento de produzir sofrimento também nos outros.  Existe uma pergunta moral inevitável: aquilo que faço para fugir do meu sofrimento produz sofrimento em quem está ao meu redor?

É aqui que Evangelion também se recusa a oferecer inocência fácil a seus personagens.

Durante a Instrumentalidade, as vozes devolvem ao indivíduo uma acusação: ele desejou um mundo fechado e confortável, expulsou aquilo que o feria e terminou criando um espaço em que somente ele poderia existir. O isolamento que deveria protegê-lo tornou-se o próprio mundo que o condena.

Eis uma das mais fortes representações dos dilemas morais e existenciais de Neon Genesis Evangelion. O desespero diz: “não quero ser este eu”. Depois diz: “não quero este mundo”. Depois imagina: “quero um mundo em que nada possa me ferir”.

Mas um mundo em que nada possa ferir-me talvez precise ser também um mundo em que nada verdadeiramente outro possa alcançar-me.

O Campo AT absoluto seria proteção perfeita. Seria também solidão perfeita.

E a abolição absoluta do Campo AT seria comunhão perfeita somente se aceitarmos chamar de comunhão uma condição em que já não existem dois indivíduos capazes de encontrar-se. Entre esses extremos, a existência humana permanece inconvenientemente difícil.

Preciso de fronteiras para ser eu.

Preciso atravessá-las para amar.

Não posso atravessá-las completamente sem destruir aquilo que encontro. Não posso fechá-las completamente sem destruir a possibilidade do encontro.

Instrumentalidade.

O nome passa então a adquirir uma ironia filosófica particular.

Aquilo que pretende completar a humanidade talvez precise, para completá-la, acabar com aquilo que torna cada ser humano alguém. E o desespero que começou dizendo “eu quero desaparecer” descobre, finalmente, que a questão nunca foi apenas desaparecer. Era aprender se seria possível continuar sendo um eu.

Um eu limitado.

Um eu contraditório.

Um eu que sofre.

Um eu que precisa dos outros sem possuí-los.

Um eu que não consegue fundar a si mesmo exclusivamente em sua própria vontade.

É justamente nesse ponto que Kierkegaard nos impede de fazer da destruição a última palavra. O contrário do desespero não é simplesmente sobreviver à decomposição. É estabelecer uma relação diferente com o próprio fato de ser aquele que se é.

E talvez seja essa a pergunta que começa a separar Shinji da Instrumentalidade: não “como posso deixar de sofrer?”, mas “posso desejar continuar existindo mesmo quando existir significa conservar as fronteiras que tornam o sofrimento possível?”

Continua

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